"Para Bloom se prevê um futuro repleto de
uma alegria eficaz.
Conhecerá países, e o gosto esquizofrénico
de algumas bebidas;
experimentará alimentos
de aspecto semelhante a um pedaço de jardim
                                                  [não tratado,
e perceberá que o jardineiro desses alimentos
não é mais que o hábito.



Por vezes receberás ameaças, caro Bloom:

não saias de casa antes das nove,
não saias depois das nove.
Mas nunca fiques aqui, avança.
Não adormeças no caminho, Bloom,
e não te deixes perturbar. Encosta o ouvido
a uma canção decisiva: encontrarás o ânimo.
Seríamos animais se não existissem certas canções.



E a importância da língua. Falemos dela.

Bloom, sendo inteligente,
em país sem língua partilhável
fará papel de imbecil,
e tal facto mostra bem a evidente desgraça
que a multiplicação das línguas constituiu
para o raciocínio do mundo.
No meio de chineses que não percebem a sua língua,
o filósofo europeu poderá ser confundido
com um tonto ou um animal vago.


(...)



Diga-se que há problemas de poesia mais difíceis

que complicadíssimos problemas de álgebra.
Se a álgebra é uma religião rigorosa,
a poesia será uma religião excessiva, religião entre
a embriaguez e um espaço onde
as mais belas músicas descansam
antes de novamente conquistarem o ar.
Os problemas de poesia colocam questões
aos mais desprotegidos sítios da existência
de um homem. Mas felizmente Bloom tapou a tempo
o acesso a tais locais perigosos."



Neste soberbo excerto de Gonçalo M. Tavares, que espero que convença mais gente a ler a obra ("Uma Viagem à Índia", Canto II, a partir da estrofe 46), pûs (ainda tem o acento circunflexo ou já mudou? Se calhar, nunca teve e estes acordos já me confundiram pela totalidade...) a negrito o último verso da 2ª estrofe só porque sim; porque é verdade e quem não concordar, cara criatura, não há espaço para si neste planeta. Nem no planeta nem em lado nenhum, mais vale desmaterializar-se.

Um exemplo de meditação profunda do meu gato, 
que devia estar a ouvir ou Rachmaninov, ou Mozart, pois de Bach, por exemplo,
 ele só ouve música coral. Still, é um grande apreciador.

E é assim que, talvez, me despeça disto por hoje.